Author Archive for claudio fajardo

01
nov
10

aécio não é tacredo

Tancredo foi fiel a Getúlio Vargas e a Jango. Tancredo fez oposição moderada à ditadura, não a um governo popular. A mídia (PIG) já tenta fazer de Aécio o grande líder de oposição ao governo Dilma. Para isso, exalta sua qualidade de “moderado”, invocando uma herança do avô. É encontradiço um descendente herdar habilidades, valores, crenças dos seus ascendentes. Na política isso também ocorre. Porém, querem fazer da moderação uma habilidade de Aécio para usar na oposiççao, isso seria uma traição a Tancredo. Tancredo era um dos herdeiros de Getúlio, o PSDB é filhote do neoliberalismo, de um direitismo e de um udenismo que se opõe equanto projeto político à história de Tancredo.

31
out
10

A perda de rumo do PSDB

A perda de rumo do PSDB
De luisnassif, dom, 31/10/2010 – 00:44
Por Hudson Luiz Villas Boas
Nassif…Veja, (ou óia) o artigo que Paulo Moreira Leite escreveu na Época dessa semana. Estou sem tempo, mas talvez seja interessante fazer um paralelo (guardando as devidas proporções, é claro) entre o PSDB e o Republican Party. Pois o Partido Republicano estadunidense nasceu sob o estandarte da modernidade e defendendo temas bastante progressistas (ou liberais, como preferem os estadunidenses) para o seu tempo e hoje são referencia para o que há de mais atrasado em termos políticos para o ocidente.

Tucanos no extremo
7:55 | sáb , 30/10/2010
Paulo Moreira Leite
Geral, eleições colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite
Caminhando pelo centro de São Paulo, ontem, assisti a uma manifestação de leitores de José Serra que saiu do Largo São Francisco e chegou a Praça da República. Foi um cortejo com milhares de pessoas. Entre funcionários públicos, o baixo clero e o alto clero da administração do governo paulista, de autarquias e empresas ligadas ao governo, você podia ver aqueles cidadãos comuns que compõem o tucano imaginário que nem sempre se pode avistar.
Depois que o governo Lula atraiu a quase totalidade do movimento sindical para apoiar seu governo, inclusive a Força Sindical, criada com ajuda de empresários paulistas, de Fernando Collor e convênios amigos nos tempos de FHC, o PSDB nunca mais foi capaz de fazer uma mobilização popular, com aquela massa de cidadãos do universo D e E das grandes cidades.
No ato de ontem, estavam cidadãos de classe média, homens e mulheres que se deram ao trabalho de sair de casa numa sexta-feira para participar de um ato político. Pude reconhecer líderes de entidades empresariais, médicos, jornalistas, profissionais liberais, alguns artistas. Algumas pessoas estavam bem vestidas, de chapéu para enfrentar o sol. Em número suficiente para serem notadas no meio do cortejo que atravessava a Barão de Itapetininga a caminho da Praça da Republica, senhoras usavam lenços estampados em volta do pescoço, numa elegancia que se vê também pelas ruas de Higienópolis e dos Jardins.
O ato foi convocado para manifestar apoio a José Serra mas muitos estavam ali basicamente para combater Dilma Rousseff. Essa foi, sem dúvida, a principal bandeira do PSDB na campanha presidencial de 2010. Os tucano se tornaram uma legenda do contra.

Minha avaliação é que Serra não conseguiu exibir um projeto de país ao longo da campanha. Exibiu fragmentos. Mostrou realizações como governador e como ministro. Mas não definiu um retrato, uma mensagem positiva para 140 milhões de pessoas. Fez uma campanha concentrada em sua personalidade, numa comparação de competênciais pessoais, quase técnicas.
FHC compareceu à passeata de ontem mas esteve ausente ao longo da campanha. Essa decisão pode explicar-se pelas pesquisas que demonstram a baixa popularidade do ex-presidente e pelo esforço de Serra em apagar suas diferenças em relação a Lula. Mas deixou Serra sem lastro.

Alguns integrantes do PSDB culpam o marketing. Eu acho ingenuidade. A questão não é de publicidade, mas de linha política. Não consigo imaginar que Luiz Gonzalez pudesse levar ao ar um anúncio de 30 segundos que não fosse a expressão do pensamento de Serra.

Numa ruptura com uma história moderada, de quem era uma típica legenda de centro-esquerda, na campanha presidencial o PSDB se tornou adversário estridente de Lula, Dilma e do PT. Uma das palavras do ato no centro de São Paulo era defender a democracia – uma forma nada sutil de dizer que ela se encontra em risco, o que é um pouco deselegante em pleno processo eleitoral num país que hospeda o mais amplo regime de liberdades de sua história.

Parecia natural, para muitos eleitores com quem conversei, que ali se falasse que o país estava sob ameaça de cair numa ditadura de esquerda ou pelo menos sob um regime autoritário. Referindo-se às críticas do governo Lula à midia, uma professora de Direito chegou a me dizer que durante a campanha Dilma começara um “movimento para fechar os jornais.” Ouvi a reclamação de que a candidata do PT tem “orgulho” por sua participação na resistência armada ao regime militar, em vez de demonstrar “arrependimento” pelo que fez, o que seria muito mais do que um balanço critico do período. Um funcionário de banco reclamou que o vice Indio da Costa foi patrulhado quando falou das ligações do PT com as FARC e sustentou que o fato das duas siglas participarem de um mesmo parque jurássico da esquerda sul-americana (o Forum São Paulo) demonstra tais ligações. Combate-se a discriminalização do aborto com argumentos que colocam convicções sobre o tema acima dos direitos de escolha de cada mulher. Pergunto sobre a importancia da economia e da distribuição de renda na definição do voto. “Aceito que uma pessoa que recebeu benefícios nesta época vote na Dilma. racional,” me dizem. “Mas e o outros? PT e PSDB nasceram em épocas diferentes da nossa história política, mas tiveram uma origem comum nos meios universitários e, em especial, na mobilização democrática que deu fim à ditadura militar. Lula fez campanha para eleger FHC no senado. A sigla tucana quer dizer: “Partido da Social Democracia Brasileira”. Num tempo em que o PT se proclamava socialista e tinha horror a assumir uma visão que em seu vocabulário remetia a pecados como reformismo e adesão a valores do capitalismo, os tucanos eram os baluartes da moderação. Seu universo era a centro-esquerda enquanto o PT era a esquerda. Personalidades como Franco Montoro lhe davam um parentesco com a Democracia Cristã chilena, aliada história do PS naquele país. Em 2010, o partido consumou um processo de quem reescreve a historia, redefine valores, alianças e posturas.Qualquer que seja o resultado das urnas, amanhã, nesta campanha eleitoral o PSDB ficou longe daquela posição centrista que chegou a ocupar na política brasileira desde seu nascimento, entre o PT, na época muito mais à esquerda do que hoje, na vizinhança do PMDB e à esquerda do DEM e do PP. Na evolução dos confrontos e da luta pelo voto na campanha presidencial de 2010, os tucanos assumiram um discurso conservador puro e duro, doutrinário, como nunca se viu em sua história.Em passado pouco distante, o PSDB se apresentava como a representação nacional da “modernidade” — em contraposição ao “atraso” na célebre formulação de Sergio Buarque de Hollanda que se tornou uma espécie de mantra tucano para se opor à esquerda em geral e ao PT em particular, embora o pai da idéia tenha assinado o manifesto de fundação petista. Desse ponto de vista, o PSDB seria expressão de uma cultura cosmopolita e tolerante, respeito pelas diferenças, favorável às liberdades do indivíduo e de sua autonomia para tomar decisões, fazer opções e organizar a vida. O ponto de partida dessa visão de mundo é emancipar a pessoa de imposições que falam em nome do coletivo, da sociedade e do Estado.

Em 2010 o partido agarrou-se ao extremismo católico e evangélico para buscar votos numa postura de quem dispensa a separação entre Igreja e Estado. Serra encerrou seu programa eleitoral com imagens de Bento XVI, representante da facção mais retrógrada da Igreja. Bispos veteranos como dom Angélico Sandalo Bernardino, aliado fidelíssimo de Mario Covas em outros tempos, protetor de mobilizações operárias quando os sindicatos eram perseguidos, porta-voz da fatia mais popular da Igreja, pedia votos para Dilma Rousseff.

Num partido que foi berço de boa parte das lutas pelos direitos da mulher, a campanha tucana abrigou e estimulou um debate em torno do aborto que foi muito além de um confronto politico, com a criação de um ambiente de inquisição em que a adversária deveria “confessar” maus pensamentos ou arder nas chamas da intolerância. A partir daquele episódio que a crônica da campanha registrará como “o caso da bolinha de papel ” o PSDB tentou convencer o eleitorado de que o adversário é uma sigla intolerante e adepta de métodos violentos. Em poucos dias, o assunto inspirou uma competição de vídeos anti-Serra pela internet.

Criticada por esconder as bandeiras do partido e fugir de sua história, evitando aparições do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que provocaram queixas gerais no partido, a campanha de José Serra chegou ao fim da corrida eleitoral com um perfil bem diferente daquilo que o candidato exibiu na maior parte de sua carreira e também no início da campanha, quando se apresentava — um típico muro tucano, poderia observar um adversário — como uma espécie de continuação heteredoxa do governo Lula. Entrevistei a atriz Fernanda Montenegro numa festa de lançamento da novela Passione, ainda no primeiro turno. Perguntada sobre a eleição, ela deu uma resposta que resumia a visão de muitas pessoas naquele momento: se disse muito feliz porque o Brasil poderia optar por três candidaturas de esquerda. (Marina Silva era a terceir integrante do grupo).

Essa mudança é a questão que irá acompanhar o PSDB em seu futuro próximo e distante. Os tucanos fizeram campanhas diferentes no plano estadual e federal. Na campanha de Geraldo Alckmin, avalia-se que a campanha presidencial poderia ter obtido resultados melhores se não tivesse sido tão extremista. Critica-se a insistência em levantar a questão do aborto, assunto que muitos eleitores, mesmo religiosos, preferem nem comentar em suas vidas privadas — muito menos na campanha. Ouve-se, também, condenações aos ataques mais duros ao governo Lula, como no caso da bolinha de papel. Estas diferenças não são novas e não terão importancia até a contagem de votos, amanhã à noite. Os rumos desse debate serão definidos, obviamente, pelo resultado da campanha presidencial.

31
out
10

serra iludiu-se com a extrema-direita

Um partido claramente de extrema direita não teria sucesso no Brasil a ponto de chegar a governar, não pelo voto. O PSDB chegou ao segundo turno com uma posição de extrema direita. Como explicar?Desde 1930, com a revolução liderada por Getúlio Vargas, nunca a direita conseguiu eleger-se com posições extremadas, puras e duras. Elegeu Jânio Quadros, Collor, e FHC. Todos bem disfarçados. Jânio chegou a condecorar Che Guevara, Collor fazia a denúncia da Corrupção, dos altos salários e um apelo populista, como Jãnio também o fizera. FHC pegou carona no Plano Real e teve o apoio de Itamar, não havia se mostrado inteiramente como um neoliberal. Como poderia Serra se iludir com as bandeiras de extrema-direita?
A linha política da campanha de Serra oscilou do adesismo a Lula ao extremo denuncismo anti-lula. Serra tentou convencer ao eleitor de que seria melhor continuador de Lula do que a Dilma. Manteve essa posição até o final da campanha, atenuando-a de modo a dizer “o que for bom eu continuarei e aperfeiçoarei”. Serra não queria se chocar com a popularidade de Lula que mantinha-se em torno de 85%. Apesar disso, Serra procurava fazer denúncias, sempre por meios escusos, sobre a “gestão” de Dilma como chefe da Casa Civil. Seus argumentos não eram de que o Lula fizera errado, mas Dilma como ministra coordenadora do governo Lula. Serra, a partir de um determinado momento, passou a utilizar-se de argumentos extremos tais como o do aborto e da corrupção, jogando sobre Dilma pesadas acusações. Foi um deslocamento para a extrema direita. Começou a perder votos e a tirar votos de Dilma. Marina cresceu.
Veio o segundo turno. Sem Marina, boa parte dos votos dados a ela seguiram o caminho de Serra. Chegou a ameaçar uma virada. A reação da sociedade, com engajamentos de artistas, intelectuais, religiosos, estudantes, sindicalistas e movimentos vários na campanha da Dilma estancou o crescimento de Serra, promoveu o crescimento e consolidação de Dilma. Serra, ao optar pela extrema direita, condenou o PSDB a definhar até a tornar-se um partidinho. Aécio, diz-se, sairá para fundar um outro partido, parecido com as posições de Tancredo Neves: moderado. (Cláudio Fajardo)

28
out
10

O país velho e conservador que emerge da campanha

O país velho e conservador que emerge da campanha

Reproduzido de Luis Nassif Online

Enviado por luisnassif, qui, 28/10/2010 – 07:58

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Uma eleição para não ser esquecida | Valor Online

Maria Inês Nassif |

O novo presidente será conhecido já no domingo, tão logo contabilizados os votos das urnas eletrônicas. O novo Brasil político, no entanto, descortinou-se durante a campanha, é velho e conservador e merecerá certamente a atenção de especialistas depois do pleito. Os partidos, em especial os de oposição, conseguiram extrair da sociedade os seus mais primitivos preconceitos, por meio de uma agenda conservadora e religiosa. Qualquer que seja o resultado da eleição – e até esse momento não existem divergências entre as pesquisas dos institutos sobre o favoritismo da candidata Dilma Rousseff (PT) – o eleito terá de lidar com uma agenda de políticas públicas da qual foram eliminadas importantes conquistas para a sociedade como um todo, e na qual o elemento religioso passou a ser um limitador da ação do Estado.

A ação da igreja conservadora e de setores do pentecostalismo contra Dilma, por conta de sua posição sobre o aborto, é o exemplo mais gritante. No Brasil, a cada dois dias morre uma mulher em conseqüência de um aborto clandestino. A legislação brasileira ao menos conseguiu trazer mulheres que correm risco de vida em decorrência de um aborto que já foi malfeito para dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e garante que a rede pública faça com segurança os abortos aceitos legalmente – os de vítimas de estupro ou quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher. Como assunto de saúde pública, o aborto não poderia ter ocupado o centro dos debates. Isso é uma questão de Estado. Como convicção moral, a mudança na legislação está na órbita do Congresso – e esses setores elegeram seus representantes. O debate eleitoral sobre o aborto, numa eleição para a Presidência, foi a instrumentalização política de um dogma – pelo menos dos setores religiosos conservadores – e excluiu do debate a maior interessada, a mulher. A eleição conseguiu retroceder décadas esse debate. O movimento feminista não agradece.

Campanha trouxe à tona preconceitos que pareciam abolidos

O país que se redemocratizou há um quarto de século e há 22 anos conseguiu entender-se em torno de uma Constituinte cujo produto final foi avançado politicamente, manteve uma reverência envergonhada aos atores políticos mais importantes do regime anterior – dos militares à Igreja conservadora – e um medo subjetivo de se contrapor de fato ao passado. Sem lidar com os seus fantasmas, tem reincorporado vários deles à vida política. É inadmissível que num país que viveu 21 anos sob o tacão militar, por exemplo, setores da sociedade (e os próprios militares) tenham reagido de forma tão desproporcional ao III Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), ou rejeitem de forma tão violenta o acerto com esse passado. Ao longo dos anos de democracia, determinados setores sociais passaram a reincorporar valores que pareciam ter sido abolidos do manual de como fazer política. Ao longo desses 25 anos que nos separam do último ditador militar, a direita, que se envergonhara no final da ditadura, lentamente desenterrou os velhos fantasmas e refez os preconceitos. Aliás, não apenas a velha direita. Uma nova direita, que se formou com atores que vinham também da resistência democrática, aceitou o caminho do conservadorismo ideológico para reaglutinar uma elite que ficou sem norte, e para a qual a emergência de grandes parcelas da população que estavam na base da estrutura social à classe média assusta – até porque a elite brasileira não tem historicamente experiência com realidades onde a disparidade de renda é menor e onde o aumento da escolaridade transforma pobres em cidadãos, e não em votos a serem manipulados.

Dentre todos os setores que atravessaram da esquerda para a direita nessas últimas duas décadas, o PSDB foi o que perdeu mais. Formado com um ideário social-democrático, mas sem experiência de articulação de política partidária e sem vocação para liderança de massas, chegou ao poder junto com o neoliberalismo tardio brasileiro, assimilou valores conservadores, incorporou-os ao seu tecido orgânico e sobreviveu, enquanto mantinha o governo federal, com a ajuda da política tradicional (e conservadora). Na oposição, não conseguiu voltar ao leito social-democrata. Deixou-se empurrar para a direita pelo PT, quando o presidente Luis Inácio Lula da Silva assumiu o seu primeiro mandato, e se aproximou tanto do PFL que as divergências entre ambos se diluíram ao longo do tempo, ao ponto de canibalizarem votos uns dos outros. Incorporou o discurso neoudenista, transformou-se num partido de vida meramente parlamentar, não reorganizou o partido para formar militância. O PSDB, hoje, é um partido que aparece como tal para apenas disputar eleições.

Isso é péssimo. O primeiro turno já compôs o Legislativo federal. O PT saiu das eleições mais forte. O PMDB, que é o partido que todos falam mal, mas do qual nenhum governo consegue se livrar, continua forte com a sua fórmula de funcionar como uma federação de partidos regionais e tende a incorporar o DEM, ex-PFL, e ficará mais forte ainda. Os demais, inclusive o PSDB, serão partidos médios – com a diferença que o PSB, por exemplo, é um partido médio em crescimento, e o PSDB terá que se reinventar para voltar a crescer, se não voltar a ser governo. O PT se acomodou no espaço da social democracia e o PMDB permanece no centro, se é possível atribuir a esse partido uma posição ideológica que não seja a da fisiologia. O espaço que o PSDB tem para se reinventar fora da direita é mínimo. O DEM e o PSDB deram muito trabalho ao presidente Lula, em oito anos de governo, mas carregaram no jogo neoudenista e se desgastaram demais. Além disso, a hegemonia paulista no PSDB permanece, o que obstrui caminhos de líderes não paulistas que poderiam reduzir o desgaste neste momento, como Aécio Neves (MG).

Não é arriscado apostar na emergência de um novo partido de oposição. O PSDB precisaria de lideranças muito hábeis para se reinventar, e de uma solidariedade e organicidade que nunca cultivou. E precisaria enterrar de vez os preconceitos e preceitos conservadores que têm desenterrado a cada nova eleição. Enfim, empurrar-se de novo para uma posição de centro. O passado do partido, todavia, não recomenda que se trabalhe com essa hipótese.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

27
out
10

POR LA MUERTE DE KIRCHNER

POR LA MUERTE DE KIRCHNER

Lula decretó tres días de duelo
El presidente de Brasil dispuso un luto oficial de tres días por la muerte del ex mandatario argentino Néstor Kirchner, a quien definió como un “gran aliado y fraternal amigo”. En Venezuela, Hugo Chávez también decretó duelo por tres días.

27
out
10

Depois de novembro e antes de janeiro

Com todo respeito, não foi o Brasil que perdeu a oportunidade. Dito assim parece que a candidata Dilma não tenha colaborado com suas propostas para o debate nacional. Ela o fez. Procurou, acima de tudo, de toda injúria, insultos e calúnias que recebeu, defender para o povo brasileiro a Petrobras e o Pré-sal. Neste momento, essa era a cobiça maior. Mas, o artigo de Santayana é belo.(CF)

Depois de novembro e antes de janeiro
27/10/2010 – 07:38 | Enviado por: Mauro Santayana

Perdeu-se, nesta campanha, repita-se, a oportunidade de que fossem discutidas relevantes questões de Estado. Há a constrangedora suspeita de que os contendores não quiseram ir além das providências administrativas, por temerem alçar-se à análise da anatomia do Estado. Esquivaram-se de apresentar abrangentes programas de governo, como, por exemplo, fez Juscelino, com seu Plano de Metas. O presidente, para os que não viveram aquele tempo, apresentou um elenco de trinta metas, que a nação poderia atingir (a 31ª foi a da construção de Brasília), e as associou à projeção da nacionalidade no mundo. A um amigo pessimista, que considerava delírio a sua promessa de fazer o país avançar 50 anos em 5, ele respondeu com a frase curta e poderosa: “É que você não conhece este povo”. As metas de Juscelino foram o instrumento político para mobilizar o país, e meio adequado para assegurar-lhe a autoestima, sem a qual não se erguem as grandes nações. Juscelino nunca viu no desenvolvimento apenas seu aspecto econômico, mas, tal como Vargas o fizera antes, como fermento para a afirmação e consolidação da soberania nacional. A soberania se faz com vontade e razão, mas necessita de economia forte, a fim de assegurar os ferros, ou seja, as armas que asseguram a independência dos povos.

O mundo que nos espera, nestes próximos e decisivos anos para a Humanidade, pede, além da exigida honradez dos governantes, a vigilância permanente sobre os movimentos universais na estrutura do poder. Na Antiguidade, um sistema imperial podia durar milênios ou várias centenas de anos. Hoje essa situação de predomínio tende a se abreviar, cada vez mais. Há noventa e nove anos, quando Sun Yatsen derrubou a dinastia manchu e proclamou a República, a China não passava de vasta colônia de miseráveis e drogados, pervertida pelo ópio que os ingleses haviam introduzido no país – e humilhada pelos europeus. Retornando a suas raízes milenares, e nelas enxertando, com as ideias do socialismo, as conquistas da tecnologia moderna, a China, nos últimos 50 anos, tornou-se a amedrontadora potência de hoje. Os Estados Unidos e a Inglaterra, além de sequazes menores, soçobram agora no charco moral de guerras inglórias e inúteis, como revelam os mais recentes documentos do Wikileaks. É uma triste ironia que, nas mesmas horas em que as atas da guerra do Iraque são expostas ao mundo, o governo títere do Iraque condene à morte Tariq Aziz, vice-primeiro-ministro de Saddam Hussein, cristão, que se revelou grande estadista, ao tentar salvar o seu povo do massacre ocidental, apelando em vão para a consciência do mundo, a começar pelo Vaticano, em busca da paz. Tariq acreditou no Ocidente; rendeu-se, confiado, aos Estados Unidos, e foi por eles entregue aos seus inimigos internos.

Quem pensar um pouco sobre a situação mundial entenderá que devemos continuar mobilizando nossos esforços, intelectuais e políticos, na permanente atualização do velho projeto nacional. Esse projeto avançou nos anos 50, a partir da Petrobras, criada e mantida sob o controle do Estado, graças aos dois grandes presidentes, o gaúcho e o mineiro, que sofreram, na carne e na alma, o acosso dos vendilhões da pátria. Não podemos dele recuar.

A Petrobras não é mencionada por acaso. Ela, sob o controle do Estado, é mais do que o símbolo do que é capaz de fazer este povo, para repetir Juscelino. É a pedra angular de um Brasil que não se intimida mais diante do mundo.
Esperamos que, depois de Finados, e antes de janeiro, possamos, todo o povo, discutir os grandes temas de Estado, esquecidos durante a campanha. Entre eles, o projeto do pré-sal, que se encontra no Senado para ser votado nas próximas semanas, e está ameaçado de desfiguração pelas emendas neoliberais.

20
out
10

paris volta a ser capital do mundo

foto l’Humanite

Paris volta a ser a capital do mundo

20/10/2010 – 07:53 | Enviado por: Mauro Santayana

Por Mauro Santayana

A campanha eleitoral entre nós, que se torna mais insensata nestes dias e horas, deixa em segundo plano o que está ocorrendo em Paris. Os protestos violentos, em que se destacam estudantes e trabalhadores, se dirigem contra o projeto de Sarkozy de prorrogar a idade mínima para a aposentadoria em dois anos, o que viola as conquistas sociais anteriores e abre caminho a novos retrocessos. Como em todos os movimentos dessa natureza, sobretudo os que ocorrem na emblemática cidade, vista como capital do mundo, o que está em causa é a civilização da aparência, da competição enlouquecida e de grande vazio na vida real.

A capital da França continua a ser forte referência da cultura política do Ocidente. Sendo assim, ela tem refletido, pelo menos ao longo dos três últimos séculos, a angústia de cada um, que se torna coletiva, logo política, em certos momentos críticos. Sem lembrar episódios mais antigos, temos a crônica de 1789-1799, com os dez anos da Revolução Francesa, as barricadas de 1848, a Comuna de Paris, de 1871, e, no século passado, a rebelião estudantil de maio de 1968.

Em 1789, a França – combalida pelos desastres econômicos, que se haviam iniciado durante o fim do reinado de Luís XV – estava asfixiada por uma nobreza irresponsável, que vivia no esplendor e no luxo, só comparável ao luxo e ao esplendor dos nouveaux-riches partejados pela globalização e pelo neoliberalismo de hoje. Os pobres continuavam na servidão da gleba, tratados como animais, os homens, e como objetos de ocasional luxúria dos barões, as mulheres. Entre os dois extremos, a burguesia nascente, com as primeiras e rudimentares indústrias e o desenvolvimento do comércio continental, reivindicava, com o apoio dos iluministas, a revolução social. E Paris foi Paris, com seus duzentos jornais, seus clubes, seus oradores de rua, seus estados-gerais, a assembleia nacional constituinte e o fim da nobreza, para se entregar depois a Napoleão.

O mesmo se repetiu em 1848, com as rebeliões que ganharam a Europa quase inteira. O capitalismo liberal, que crescia, exagerava na acumulação financeira, mediante exploração tão cruel dos trabalhadores que fazia benigno o tratamento feudal anterior. Em 1871, a Comuna de Paris foi, conforme Marx, assalto frustrado ao céu. Durante algumas semanas de março e de abril, seu povo, que havia sido humilhado pela vergonhosa rendição do rei aos alemães, tomou o poder e foi senhor do próprio destino, cometendo exageros, mas convivendo com a esperança nas ruas e em suas casas. O movimento foi derrotado com o sangue escorrendo pelas sarjetas da grande cidade, na repressão impiedosa de Thiers, em maio. Também em maio de 1968, a juventude de Paris buscou, de novo, escalar o céu, e foi vencida mais pelo cansaço do que pela ação policial de De Gaulle.

Novamente Paris se levanta. Os trabalhadores sabem que o capitalismo financeiro está exigindo do governo a redução de seus direitos sociais, e a extensão dos anos de trabalho é apenas o início da tão sonhada flexibilização dos novos neoliberais. A ação de Sarkozy e de outros governantes europeus provoca a reação popular contra o sistema de promiscuidade criminosa dos grandes banqueiros – que controlam os mercados mundiais – com os governos corrompidos, situação a cada dia mais insuportável aos seres humanos. O repetido suicídio de trabalhadores franceses, obrigados ao regime de semiescravidão na pátria de les droits de l’homme, é símbolo deste tempo intolerável.

Não devemos perder a esperança, embora seja ainda cedo para assaltar o céu.