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paris volta a ser capital do mundo

foto l’Humanite

Paris volta a ser a capital do mundo

20/10/2010 – 07:53 | Enviado por: Mauro Santayana

Por Mauro Santayana

A campanha eleitoral entre nós, que se torna mais insensata nestes dias e horas, deixa em segundo plano o que está ocorrendo em Paris. Os protestos violentos, em que se destacam estudantes e trabalhadores, se dirigem contra o projeto de Sarkozy de prorrogar a idade mínima para a aposentadoria em dois anos, o que viola as conquistas sociais anteriores e abre caminho a novos retrocessos. Como em todos os movimentos dessa natureza, sobretudo os que ocorrem na emblemática cidade, vista como capital do mundo, o que está em causa é a civilização da aparência, da competição enlouquecida e de grande vazio na vida real.

A capital da França continua a ser forte referência da cultura política do Ocidente. Sendo assim, ela tem refletido, pelo menos ao longo dos três últimos séculos, a angústia de cada um, que se torna coletiva, logo política, em certos momentos críticos. Sem lembrar episódios mais antigos, temos a crônica de 1789-1799, com os dez anos da Revolução Francesa, as barricadas de 1848, a Comuna de Paris, de 1871, e, no século passado, a rebelião estudantil de maio de 1968.

Em 1789, a França – combalida pelos desastres econômicos, que se haviam iniciado durante o fim do reinado de Luís XV – estava asfixiada por uma nobreza irresponsável, que vivia no esplendor e no luxo, só comparável ao luxo e ao esplendor dos nouveaux-riches partejados pela globalização e pelo neoliberalismo de hoje. Os pobres continuavam na servidão da gleba, tratados como animais, os homens, e como objetos de ocasional luxúria dos barões, as mulheres. Entre os dois extremos, a burguesia nascente, com as primeiras e rudimentares indústrias e o desenvolvimento do comércio continental, reivindicava, com o apoio dos iluministas, a revolução social. E Paris foi Paris, com seus duzentos jornais, seus clubes, seus oradores de rua, seus estados-gerais, a assembleia nacional constituinte e o fim da nobreza, para se entregar depois a Napoleão.

O mesmo se repetiu em 1848, com as rebeliões que ganharam a Europa quase inteira. O capitalismo liberal, que crescia, exagerava na acumulação financeira, mediante exploração tão cruel dos trabalhadores que fazia benigno o tratamento feudal anterior. Em 1871, a Comuna de Paris foi, conforme Marx, assalto frustrado ao céu. Durante algumas semanas de março e de abril, seu povo, que havia sido humilhado pela vergonhosa rendição do rei aos alemães, tomou o poder e foi senhor do próprio destino, cometendo exageros, mas convivendo com a esperança nas ruas e em suas casas. O movimento foi derrotado com o sangue escorrendo pelas sarjetas da grande cidade, na repressão impiedosa de Thiers, em maio. Também em maio de 1968, a juventude de Paris buscou, de novo, escalar o céu, e foi vencida mais pelo cansaço do que pela ação policial de De Gaulle.

Novamente Paris se levanta. Os trabalhadores sabem que o capitalismo financeiro está exigindo do governo a redução de seus direitos sociais, e a extensão dos anos de trabalho é apenas o início da tão sonhada flexibilização dos novos neoliberais. A ação de Sarkozy e de outros governantes europeus provoca a reação popular contra o sistema de promiscuidade criminosa dos grandes banqueiros – que controlam os mercados mundiais – com os governos corrompidos, situação a cada dia mais insuportável aos seres humanos. O repetido suicídio de trabalhadores franceses, obrigados ao regime de semiescravidão na pátria de les droits de l’homme, é símbolo deste tempo intolerável.

Não devemos perder a esperança, embora seja ainda cedo para assaltar o céu.

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1 Response to “paris volta a ser capital do mundo”


  1. outubro 21, 2010 às 4:40 am

    Quem sabe será o começo de um novo devir de esperanças. Que o povo vá saindo da letargia e da esperança de o capitalismo resolver seus problemas mais sentidos, o que nunca ocorreu nem nunca ocorrerá. Então o “assalto ao céu” deve ter nova tentativa, quem sabe, agora, subindo de degrau em degrau e não se jogando puramente ao alto para cair e se esborrachar de novo! Só a Revolução de verdade resolverá a questão, mas com causa, projeto e cuidado para não ser novamente cooptado pelas oligarquias que, se necessário, farão a revolução eles mesmo, antes que o povo a faça, e farão do velho jeito de revolucionar para continuar tudo como dantes. Que a consciência de classe para si vingue desta vez ou ache seu caminho certo!


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